Archive for the ‘Circulares à imprensa’ Category

Matilde Javier Ciria: “O Público” é poesia pura

Quarta-feira, Outubro 25th, 2017

“O Público”, de Federico Garcia Lorca, “é poesia pura traduzida em texto dramático”, afirmou hoje Matilde Javier Ciria, director artístico do projecto “Público x Lorca”, que terá a sua estreia mundial em Coimbra, no Teatro da Cerca de São Bernardo, a 16 de Novembro. O trabalho é uma co-produção internacional, financiada pelo programa Iberescena, que reúne artistas costa-riquenhos, espanhóis, franceses e portugueses.

Rafaela Bidarra e Matilde Javier Ciria (foto: Pedro Rodrigues)

Rafaela Bidarra e Matilde Javier Ciria (foto: Pedro Rodrigues)

Matilde Javier Ciria, “artista multidisciplinar” nascido em Murcia, Espanha, em 1978, tem desenvolvido trabalho de pesquisa em torno do teatro físico e da dança butoh, áreas em que é professor desde 2011. Assume a direcção artística do projecto “Público x Lorca”, uma criação colectiva a partir da peça “O Público”, do dramaturgo espanhol Federico García Lorca. Na conferência de imprensa realizada esta quarta-feira no Bar/Livraria do TCSB, referiu-se ao texto escolhido como “a obra perfeita” para trabalhar em conjunto “as diferentes linguagens do teatro físico, da dança e do teatro de texto”. A peça – afirmou – “não pára de dar-me imagens”. Salientando ainda as “infinitas camadas” que é possível encontrar na peça que o próprio Lorca considerou “irrepresentável” em 1933, logo depois de a ter escrito, Matilde destacou as interrogações que ela suscita. À cabeça, destacou, está a questão de “o que fazes tu com a tua liberdade – tanto como pessoa como enquanto artista no palco?” Ainda no que respeita aos conceitos-chave para a construção e interpretação do espectáculo, o encenador lembrou duas ideias muito presentes no trabalho de Lorca, que transportou para esta criação: “transformação e morte”.

O colectivo "Público x Lorca" na conferência de imprensa de apresentação do projecto - Coimbra, TCSB, 25/10/2017 (foto: Pedro Rodrigues)

O colectivo “Público x Lorca” na conferência de imprensa de apresentação do projecto – Coimbra, TCSB, 25/10/2017 (foto: Pedro Rodrigues)

Carolina Santos, responsável pela direcção plástica do espectáculo, começou o seu percurso artístico no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), tendo nos últimos anos desenvolvido uma intensa carreira internacional, em particular a partir de França. Com Maxence Thireau, assegura a construção das máscaras e a concepção dos figurinos. Assumindo o “enorme desafio”, provocado tanto pelo texto como pelo facto de apenas três actores terem de dar corpo a 37 personagens, referiu a “emoção” e o “instinto” como linhas mestras do trabalho que está a desenvolver, que procura “servir a dinâmica do movimento” que é exigida aos intérpretes. Desafio idêntico terá Jorge Ribeiro, responsável pelo desenho de luz e pela direcção técnica.

O espectáculo está a ser construído por um colectivo de 10 artistas oriundos de quatro países: Costa Rica, Espanha, França e Portugal. Depois de uma primeira residência artística realizada em Espanha, o grupo está em Coimbra há cerca de duas semanas, ensaiando no Teatro de Bolso do TEUC, um dos parceiros do projecto, antes de “se mudar” para o TCSB, onde acontecerá a estreia e a temporada inaugural de 3 dias, entre 16 e 18 de Novembro. Rafaela Bidarra, actriz e produtora do espectáculo, também TEUC antiga, lembrou as origens do projecto, que situou na Costa Rica, quando Matilde Ciria foi convidado a dirigir o espectáculo “Frankestein”, de Mary Shelly, no Teatro Nacional daquele país. Aí se deu o primeiro contacto com Arturo Campos, actor costa-riquenho que integra o elenco. O projecto foi submetido a concurso no âmbito do programa Iberescena e obteve assim o financiamento necessário à sua concretização. Depois da estreia em Coimbra, o espectáculo partirá para uma digressão internacional, pelos restantes três países representados e “por outros países da América Latina”.

Matilde Javier Ciria, Rafaela Bidarra, Eduardo Retamar, Arturo Campo, Carolina Santos e Vera Silva (foto: Pedro Rodrigues)

Matilde Javier Ciria, Rafaela Bidarra, Eduardo Retamar, Arturo Campo, Carolina Santos e Maxence Thireau (foto: Pedro Rodrigues)

Na abertura da conferência de imprensa (que reuniu praticamente todo o colectivo), Pedro Rodrigues, produtor d’A Escola da Noite – companhia residente e responsável pela gestão e programação do TCSB – afirmou ser um privilégio para a companhia poder associar-se a este projecto internacional. Nos nove anos que A Escola da Noite leva à frente do Teatro, esta é “a 20.ª estreia externa à companhia que aqui acontece e isso é algo de que nos orgulhamos: queremos que esta casa seja uma casa amiga da criação artística e gostamos de a colocar à disposição de outros artistas e de outras estruturas”. Para além disso, neste caso, há várias singularidades, destacadas pelo produtor: o facto de ser um projecto internacional, cuja estreia mundial acontece em Coimbra; a juventude da esmagadora maioria dos artistas envolvidos (quase todos abaixo dos 40 anos); as ligações a Coimbra de vários dos membros do colectivo; o contexto de intercâmbio entre diferentes países, no qual também A Escola da Noite está empenhada há muito; e, ainda, Lorca – “um dos nossos autores” e autor de “dois espectáculos emblemáticos do percurso da companhia”: “Amores” (1996) e “Amor de Don Perlimplín con Belisa en su Jardín” (2002).

“Público x Lorca” é o principal destaque da programação de Novembro do Teatro da Cerca de São Bernardo. Atendendo à sua curta temporada (apenas 3 sessões), é altamente recomendável a reserva antecipada de lugares, o que pode ser feito pelos contactos habituais do Teatro: 239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt.

DANÇA | TEATRO
Público x Lorca
criação colectiva a partir d’O Público de Federico García Lorca

Coimbra, Teatro da Cerca de São Bernardo
16 a 18 de Novembro de 2017

interpretação Arturo Campos (CR), Eduardo Retamar (ES), Matilde Javier Ciria (ES), Rafaela Bidarra (PT) direcção Matilde Javier Ciria (ES) assistência de dramaturgia e contexto literário Pablo de las Vecillas (ES) direcção plástica Carolina Santos (PT) máscaras Maxence Thireau (FR), Carolina Santos (PT) música – composição original Fabian Arroyo (CR) desenho de luz e direcção técnica Jorge Ribeiro (PT) assistência técnica Vera Silva (PT) grafismo e fotografia Carolina Santos (PT), Rafaela Bidarra (PT), Eduardo Retamar (ES), Matilde Javier Ciria (ES), Stephanie Campos (CR)
M/14 > 6 a 10 Euros
Página no Facebook

Informações e reservas:
239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt

Catarina destrava línguas no TCSB

Terça-feira, Outubro 10th, 2017

Uma oficina de trava-línguas é a original proposta do próximo Sábado para a Infância, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra. No dia 14 de Outubro, pelas 11h00, a cantora Catarina Moura dirige a iniciativa, destinada a crianças entre os 5 e os 10 anos. Entre “três pratos de trigo”, “três tigres tristes”, um “pardal pardo palrador” e um “coelho furunfunfelho”, a diversão está garantida!

Oficina_trava-linguas

desenho de Luís Pedro Madeira

Catarina Moura, a bela e inconfundível voz do Taleguinho, traz desta vez aos Sábados para a Infância uma oficina que tem realizado em escolas e noutros espaços culturais do país. Os trava-línguas são provenientes da tradição oral popular e podem aparecer como versos, frases ou prosa. O desafio é dizer as palavras de forma rápida ou várias vezes repetidas sem errar… sem travar a língua!
Para além do aspecto lúdico, os trava-línguas desempenham também um importante papel ao nível psico-linguístico, devido à sua estrutura de textos curtos, com cinco ou seis versos, em métrica de quatro a seis sílabas. “A sua forma de jogo verbal-gestual – dizer com rapidez e clareza sílabas muitas vezes difíceis de pronunciar – gera na criança prazer (físico e psíquico) e permite resolver ou mitigar uma necessidade. Com a aquisição da leitura e da escrita esta torna-se uma ferramenta pedagógica essencial para a consolidação do português nas crianças” – adianta Catarina Moura.
A oficina tem a duração de uma hora e meia (com um breve intervalo), está marcada para as 11h00 e custa 6 Euros por participante. É possível e aconselhável efectuar inscrição prévia, pelos contactos habituais do Teatro: 239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt.

Catarina Moura

Catarina Moura

CATARINA MOURA
Ana Catarina Ribeiro de Moura nasceu no Entroncamento, a 25 de Dezembro de 1975. Licenciada em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Trabalhou durante 13 anos na área de Educação de Adultos.
É convidada em 2013, pela companhia ACCCA da coreógrafa Clara Andermatt, para participar como intérprete e criadora no espetáculo “Fica no Singelo”, com direção artista e coreográfica de Clara Andermatt, presentemente em cena.
Integra desde 1999 a Brigada Victor Jara, o grupo Segue-me à Capela, e o Realejo com onde permaneceu até 2013.
Em 2010 grava com o grupo Galego Ardentia o CD “Ardentia Vintage” (2012).
Enquanto intérprete participa no filme “Fados” do realizador Carlos Saura. Com a Produtora Persona Non Grata grava em 2007 e 2011 um tema da banda sonora da curta-metragem “Deus não quis”, do realizador António Ferreira, e um tema da curta-metragem “O vôo da papoila” realizada por Nuno Portugal.
Durante a sua vida académica integrou os seguintes grupos: Grupo de Música Popular Contos Velhos Rumos Novos da Tuna Académica da Universidade de Coimbra; Grupo Etnográfico e Folclórico da Academia de Coimbra (GEFAC) e Orquestra Típica e Rancho da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra.
Em 2014 cria com Luis Pedro Madeira o projecto de intervenção cultural para público infantil Taleguinho, que tem sido um dos principais parceiros d’A Escola da Noite nos Sábados para a Infância no TCSB.

ESTÁ A CHEGAR A “EMBARCAÇÃO DO INFERNO
Entretanto, ainda no TCSB, está quase tudo pronto para voltar a receber a “Embarcação do Inferno”, que A Escola da Noite e o Cendrev colocaram a navegar há um ano. A temporada em Coimbra, que decorre entre 18 e 29 de Outubro, marca o início da segunda fase de apresentações deste espectáculo, que assinala os 500 anos da primeira apresentação e da primeira publicação do mais conhecido e estudado texto de Gil Vicente, também conhecido como “Auto da Barca do Inferno”.
O espectáculo tem co-encenação de António Augusto Barros e José Russo, cenografia de João Mendes Ribeiro e Luisa Bebiano, música de Luís Pedro Madeira, figurinos e bonecos de Ana Rosa Assunção e desenho de luz de António Rebocho. O elenco, composto por actores das duas companhias, conta com Ana Meira, Igor Lebreaud, Jorge Baião, José Russo, Maria João Robalo, Miguel Magalhães, Rosário Gonzaga e Rui Nuno. CARTAZCOIMBRAEVORA
As 10 sessões para o público escolar estão praticamente esgotadas, com a presença confirmada de 16 escolas ou agrupamentos da Região e de perto de 1.300 alunos dos ensinos básico e secundário. Para o público em geral estão previstas 6 sessões, entre 21 e 29 de Outubro, de quinta a sábado às 21h30 e aos domingos às 16h00. Os bilhetes podem ser comprados antecipadamente ou reservados pelos contactos habituais do Teatro.

Coimbra, Teatro da Cerca de São Bernardo
Programação até ao final de Outubro/2017

OFICINA
Oficina de trava-línguas
Catarina Moura
14 de Outubro de 2017
Sábado, 11h00
5 aos 10 anos > 90′
Preço: 6 Euros
Sábados para a infância no TCSB

LEITURA DE CONTOS PARA A INFÂNCIA
Flores de Livro
Cláudia Sousa
21 de Outubro de 2017
sábado, 11h00
Bar do TCSB > M/2 > 50′
Preços: 3,00 € (individual); 5,00€ (criança + acompanhante)
Sábados para a infância no TCSB

TEATRO
Embarcação do Inferno
de Gil Vicente
A Escola da Noite / Cendrev
21 a 29 de Outubro de 2017
quinta a sábado, 21h30 > domingos, 16h00
sessões para escolas:
18 a 27 de Outubro
quarta a sexta-feira, 11h00 e 15h00
M/12 > 60′
Preços: 3 a 10 Euros

DANÇA | OFICINA
Dança para pais e filhos
Leonor Barata
28 de Outubro de 2017
Sábado, 11h00
adultos + crianças dos 18 meses aos 4 anos > 60′
Preço: 10 Euros (adulto+criança)
Sábados para a infância no TCSB

informações e reservas:
239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt

“TOMEO Histórias Perversas”: últimos espectáculos!

Segunda-feira, Setembro 25th, 2017

A temporada do mais recente espectáculo d’A Escola da Noite, “TOMEO Histórias Perversas” termina já no próximo dia 30 de Setembro. As últimas quatro sessões, para as quais ainda é possível comprar ou reservar bilhete, são de Quarta a Sábado, sempre às 21h30.

TOMEOHistoriasPerversas_EduardoPinto04

Miguel Magalhães e Igor Lebreaud, “TOMEO Histórias Perversas” (foto: Eduardo Pinto)

Culminando uma temporada entusiasticamente recebida pelo público, com várias lotações esgotadas e muitos comentários elogiosos partilhados nas redes sociais, A Escola da Noite conclui a 30 de Setembro a temporada do seu mais recente espectáculo.
Estreado a 14 de Setembro, “TOMEO Histórias Perversas” reúne mais de duas dezenas de textos breves do dramaturgo espanhol Javier Tomeo, seleccionados a partir das obras “Histórias Mínimas”, “Cuentos perversos”, “Inéditos y Reescrituras”, “Los nuevos inquisidores”, “Problemas oculares” e “Bestiário”. Míopes, pais que vêem gigantes onde filhos vêem moinhos, assassinos que saltam da tela de cinema, crianças que partem a lua em pedaços, esqueletos que falam, capitães que desertam e leões que choram são apenas algumas das dezenas de personagens em que se desdobra o (pequeno) elenco do espectáculo, composto por Igor Lebreaud, Miguel Magalhães e Sofia Lobo.
Seleccionados por António Augusto Barros e traduzidos pela equipa criativa da companhia, os textos agora levados à cena são uma pequena amostra da literatura “livre e audaz” que caracteriza a obra de Tomeo, autor prolífico e considerado por muitos como “inclassificável”, mas confesso admirador de Kafka, de Buñuel, do surrealismo, ou ainda de Charlot, Buster Keaton e Ramón Gómez de la Serna.

TOMEOHistoriasPerversas_EduardoPinto03

Sofia Lobo, “TOMEO Histórias Perversas” (foto: Eduardo Pinto)

Encarando de frente alguns dos temas que acompanham todo o trabalho de Tomeo – o medo, a solidão, a incapacidade (ou a dificuldade) de comunicar – mas também a poesia e o humor de que nunca abdicou, A Escola da Noite regressa ao seu “autor fundador” (é de Tomeo o “Amado Monstro”, com que tudo começou, em 1992). À equipa “da casa” (na qual se inclui Ana Rosa Assunção, figurinista, aderecista e designer gráfica), juntam-se Jorri (que compôs a música e a interpreta ao vivo em todas as sessões desta temporada), António Rebocho (com um desenho de luz que realça o mistério e a inquietação que os textos sugerem) e Eduardo Pinto (cujo trabalho no vídeo alcança aqui um novo patamar). Com a consultadoria de João Mendes Ribeiro e Luísa Bebiano, António Augusto Barros concebeu também, a par da dramaturgia e da encenação, o espaço cénico – uma “máquina teatral”, recheada de surpresas, que tira o maior partido das características do TCSB.
“TOMEO Histórias Perversas” tem apenas mais quatro sessões, entre 27 e 30 de Setembro (quarta a sábado), sempre às 21h30. Os bilhetes custam entre 5 e 10 Euros. Tendo em conta a procura registada nas primeiras semanas e porque a lotação é mais reduzida do que o habitual (devido às particularidades do cenário), é ainda mais recomendável que os espectadores comprem antecipadamente ou reservem os seus lugares, pelos contactos: 239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt.

Coimbra, Teatro da Cerca de São Bernardo
PROGRAMAÇÃO DE 25 DE SETEMBRO A 1 DE OUTUBRO DE 2017

TEATRO
TOMEO Histórias Perversas
A Escola da Noite
até 30 de Setembro de 2017
quarta a sábado, 21h30; domingos, 16h00
M/12 > 1h30
Preços: Normal, 10 €; Estudante, jovem, M/65, profissionais e amadores/as de teatro: 6 €; Entidades protocoladas TCSB: 5 €; Assinaturas TCSB: 50 € (10+1 entradas) ou 30 € (5 entradas)
http://weblog.aescoladanoite.pt/?page_id=15811

informações e reservas:
239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt

Por falar em respeito

Sexta-feira, Setembro 22nd, 2017

imagem en 25 anos

A Escola da Noite – Comunicado

POR FALAR EM RESPEITO

Nas três últimas reuniões de Câmara foi abordada a questão do relacionamento entre a Autarquia e A Escola da Noite. A 7 de Agosto, a Vereadora da Cultura acusou-nos de sermos pouco sérios, o Presidente da Câmara insinuou que as nossas posições são motivadas pela campanha eleitoral e o Vereador Carlos Cidade disse que os responsáveis da companhia não têm “carácter”. Não compreendemos e repudiamos os insultos, que consideramos indignos dos cargos que estas pessoas ocupam. Para surpresa nossa, a Vereadora da Cultura veio esta segunda-feira exigir-nos “respeito”.

Pela primeira vez nestes quatro anos, somos obrigados a tomar uma posição pública acerca do nosso relacionamento com o actual Executivo.
Desde o final do ano passado, não existe nenhum protocolo entre a Câmara de Coimbra e A Escola da Noite. Daqui resultam três consequências, graves e imediatas: a companhia ainda não recebeu qualquer apoio financeiro da CMC em 2017; o Teatro da Cerca de São Bernardo – equipamento municipal – tem sido gerido pel’A Escola da Noite sem nenhum documento que regule essa gestão; a companhia está a suportar sozinha todas as despesas de funcionamento do Teatro.

AS “EXIGÊNCIAS” D’A ESCOLA DA NOITE
Uma mentira mil vezes repetida não passa a ser verdade.
A Vereadora da Cultura fala repetidamente das “exigências” d’A Escola da Noite que, em nome do interesse público, não pode aceitar.
Estas “exigências” de que tem falado são exigências suas e não nossas. São novas exigências que quer ver acrescentadas ao acordo que tínhamos, ao acordo que nos regeu nos últimos três anos e que, em nome do interesse público, assinou connosco.
Já este ano, depois de nos submeter a uma farsa de um concurso, a Vereadora veio introduzir vários agravamentos às nossas contrapartidas, entre as quais: a responsabilidade pela manutenção dos equipamentos do Teatro (ar condicionado, sistema de combate a incêndios, etc.), que até aí cabia à CMC; a participação em mais iniciativas do que as que já estavam previstas no protocolo anterior; a exigência de mais criações artísticas por ano.
Por tão absurda, desproporcionada e publicamente injustificável, a Vereadora deixou cair a exigência de nos responsabilizar pela manutenção dos equipamentos do Teatro (num gesto a que agora chama “cedência”) e fez finca pé nas outras duas.
Nós não fizemos nenhuma exigência.
Estas novas exigências da Autarquia são o culminar de quatro anos de indiferença, desrespeito, abandono, falta de diálogo e, finalmente, a chantagem de quem tem a faca e o queijo na mão. Nós limitámo-nos a dizer que, nas actuais circunstâncias, não temos condições para as aceitar.
A nossa exigência é na justificação diária do nosso profissionalismo, no empenho e no rigor que colocamos em cada nova criação. Estreámos na semana passada “TOMEO Histórias Perversas”, em cena no TCSB até ao fim do mês, e reporemos em Outubro “Embarcação do Inferno”, co-produzida com os nossos camaradas de Évora.
A Vereadora justifica as suas exigências com a sua decisão de “aumentar” o financiamento autárquico à companhia em 10 mil Euros. Nós, no entanto, não solicitámos esse ardiloso “aumento” de uma verba que se mantém desde os anos 90 do século passado. E podemos até prescindir dele, face às bem mais onerosas exigências que nos quer impor.

Tal como estão propostas, estas novas exigências da Autarquia violam três princípios de que não podemos abdicar na relação com as instituições que nos financiam, em particular quando se trata de contratos para a prestação de um serviço público:
• A liberdade de criação artística;
• A clareza na definição dos direitos e das obrigações dos signatários;
• A razoabilidade das contrapartidas exigidas às entidades financiadas.

1. A LIBERDADE DE CRIAÇÃO
A Câmara exige que nos comprometamos a estrear no mínimo duas criações por ano, a partir de 2018. A nossa média em 25 anos é 2,6 estreias por ano e desejamos aumentá-la – o fundamento do nosso trabalho é a criação artística. Mas é preciso ter em conta que cada nova criação representa um enorme investimento artístico, financeiro, de produção, de montagem, de comunicação, que envolve toda a equipa durante vários meses. Sobretudo no contexto de sufoco financeiro em que nos encontramos (com cortes de dois terços no financiamento do Estado Central), fixar o número mínimo de estreias proposto pela Autarquia condicionaria à partida o tipo de espectáculos que podemos criar, comprometeria digressões de média e larga escala e limitaria a possibilidade de repormos espectáculos anteriores, mesmo quando o interesse do público o exige. Para darmos exemplos recentes: com o contrato agora proposto pela CMC, não poderíamos ter construído “Embarcação do Inferno”, cujos ensaios decorreram em duas cidades ao longo de três meses e meio e que completará em Março de 2018 doze meses de exploração intensa, numa digressão nacional que visitará quase duas dezenas de cidades em todo o país, com mais de 100 sessões e mais de 10 mil espectadores. Nem poderíamos ter feito “As Orações de Mansata” (2013/2014), um dos mais importantes trabalhos do nosso percurso, com jovens actores de seis países lusófonos, que ocupou mais de sete meses de trabalho intenso, incluindo oficinas de um mês em Luanda, Bissau e São Tomé.
Não somos melhores nem piores do que os outros projectos, mas reclamamos a nossa diferença. A companhia tem de manter o direito de escolher o que fazer, se quer fazer uma coisa maior ou duas coisas menores. O desenvolvimento de um projecto artístico implica a liberdade de quem o desenvolve: por vezes, faz mais sentido estar um ano com um espectáculo com aceitação pública do que fazer um atrás do outro, burocraticamente. Outras vezes, em especial no domínio do intercâmbio, faz sentido prolongar processos de criação, explorar diferenças culturais.
É essa liberdade que estamos a defender, contra uma imposição administrativa, feita por quem nem sequer se dá ao trabalho de ver o que fazemos.

2. CLAREZA NOS DIREITOS E OBRIGAÇÕES
A Câmara exige que nos comprometamos a participar gratuitamente em mais três iniciativas anuais do Munici?pio de Coimbra ou por ele apoiadas. Contestamos a ambiguidade: não sabemos que iniciativas são estas. Como podemos comprometer-nos a fazer algo que não sabemos o que é, o que implica, quando acontece, quanto custa? Tentámos que a Vereadora da Cultura o explicasse, mas não conseguimos.
Queremos deixar claro: aceitamos a existência de contrapartidas, como se comprova pelas dezenas de contratos já assinados e cumpridos com o Governo e com a Autarquia. Mas exigimos transparência e objectividade nos termos contratuais – para que uma e a outra parte saibam exactamente com o que podem contar; para que possamos planear, calendarizar e orçamentar devidamente as nossas actividades.
A fórmula ambígua, que em reunião de Câmara chegou a ser traduzida como “disponibilidade para colaborar com a Autarquia em troca do apoio financeiro”, reflecte uma visão distorcida do que devem ser as relações entre financiadores e prestadores de serviços públicos, com a qual não pactuamos.

3. A RAZOABILIDADE DAS CONTRAPARTIDAS
De forma transversal às duas questões pendentes impõe-se, ainda, o princípio da razoabilidade das contrapartidas. Importa relembrar o conjunto de contrapartidas que sempre foram aceites pel’A Escola da Noite, sem nenhuma oposição. Chamamos a atenção para duas delas: a garantia de funcionamento diário do TCSB, assegurando toda a sua programação externa; o acolhimento de “oito espetáculos ou iniciativas culturais de natureza artística promovidos pela Câmara Municipal, assegurando o necessário apoio técnico na montagem e apresentação destes eventos, (…) até ao máximo de dezasseis dias de ocupação da sala e do pessoal da companhia, sem quaisquer encargos para a CMC”.
Em 2016, o funcionamento e a programação do TCSB custaram 71 mil Euros; a obrigação de acolher no Teatro as iniciativas da CMC (que nunca contestámos e que temos cumprido) implica um investimento da companhia que pode atingir os 15 mil Euros/ano. Talvez a Câmara Municipal considere que é pouco. Nós sabemos que é muito e não podemos dar mais.

É por estas razões que não aceitamos as exigências da Câmara Municipal. Os responsáveis pela Autarquia, que conhecem há muito os nossos argumentos e a situação financeira em que nos encontramos, deixaram arrastar o impasse até esta altura. É uma atitude irresponsável e com consequências graves, na medida em que deixa um dos principais equipamentos culturais da cidade entregue à providência (e ao nosso próprio sentido de responsabilidade); porque na prática nos priva de um financiamento público de que nos consideramos merecedores e credores; e ainda porque nos coloca numa situação de incerteza e de fragilidade acrescida na pesquisa de outros apoios, públicos e privados.

Só a Câmara Municipal pode resolver este impasse e é à Câmara Municipal que compete resolvê-lo. Os actuais responsáveis optaram por não o fazer.
Ao contrário do que a Vereadora afirmou, a Câmara não fez nenhuma proposta para resolver a situação. Limitou-se a reafirmar as suas exigências e a pedir que repensássemos a nossa posição, lembrando-nos das consequências que poderemos sofrer por não termos um protocolo assinado com a Autarquia (como se fosse preciso e não estivéssemos já a sofrê-las).
Ao contrário do que a Vereadora afirmou, nós não nos limitámos a registar aquilo que sentimos ser uma chantagem. Nós propusemos uma solução, à qual a Câmara não respondeu e da qual não quis dar conhecimento público: em dois e-mails enviados à Vereadora da Cultura (a 1 e a 15 de Setembro), sugerimos que a Autarquia redefinisse o valor do apoio financeiro que se propõe atribuir-nos, em função do que lhe parecer “justo e adequado à actividade que podemos, sabemos e queremos desenvolver”. Isto é: uma vez que a Câmara Municipal entende que as contrapartidas que vigoraram até ao ano passado não são suficientes para justificar o apoio que ela própria propôs, podem os seus responsáveis definir um outro valor. Porque não respondeu a Câmara a esta proposta?

No ano em que celebra o 25º aniversário e no momento em que tem em cena a sua 65ª produção, A Escola da Noite reafirma o seu interesse em continuar a trabalhar em Coimbra e o respeito – a que nunca faltou – pela Câmara Municipal e pelo público da cidade. Mas é forçada a relembrar aos actuais responsáveis pela Autarquia que a dignidade é um valor que não tem preço e que o respeito é uma via com dois sentidos.

A Escola da Noite
Coimbra, 22 de Setembro de 2017

P.S. É verdade que os vereadores, na sua boa fé, aprovaram por unanimidade um protocolo que a Vereadora lhes levou à sessão de Câmara de 8 de Maio de 2017. Esse protocolo não era do nosso conhecimento e, portanto, não tinha o nosso acordo, nem tácito nem expresso. Se os vereadores soubessem que ele não tinha o nosso acordo, teria sido o protocolo aprovado por unanimidade? Os vereadores foram enganados. Que triste argumento, pois, o da Vereadora na última sessão de Câmara…

[comunicado também disponível na nossa página de Facebook]

A Escola da Noite conta Histórias Perversas no TCSB

Quarta-feira, Setembro 13th, 2017

A Escola da Noite estreia em Coimbra na próxima quinta-feira, 14 de Setembro, o espectáculo “TOMEO Histórias Perversas”. A nova criação assinala os 25 anos da mais antiga companhia profissional de teatro da cidade, que regressa ao universo do dramaturgo espanhol Javier Tomeo. Foi com ele que tudo começou, em Março de 1992.

imagem tomeo pequena

“TOMEO Histórias Perversas” é a 65.ª criação d’A Escola da Noite. Com dramaturgia, encenação e espaço cénico de António Augusto Barros, “TOMEO Histórias Perversas” inclui 26 textos seleccionados a partir das obras “Histórias Mínimas”, “Cuentos perversos”, “Inéditos y Reescrituras”, “Los nuevos inquisidores”, “Problemas oculares” e “Bestiário”.
Definida como uma “literatura livre e audaz”, a escrita de Tomeo – muitas vezes a raiar o absurdo – é plena de humor, ironia e sátira mas também de poesia e humanismo. A perversidade, anunciada pelo próprio, e a aparente falta de compaixão com que trata as suas personagens desafiam-nos a pensar na forma como vivemos, como vivemos com o outro e como convivemos com um mundo que tantas vezes nos parece uma coisa demasiado estranha. A propósito dos “seres incompletos, incapazes de encaixar no mundo” que povoam os textos de Tomeo, escreveu o crítico Daniel Gascón: “Com as suas parábolas sobre o medo irracional, a solidão e a incomunicação, Javier Tomeo faz com que a realidade se torne um pouco mais ameaçadora, mas também muito mais rica e fascinante. É o melhor serviço que um escritor pode prestar aos seus leitores”.

IMG_4789

Miguel Magalhães, “TOMEO Histórias Perversas” (foto: Eduardo Pinto)

Gigantes, moinhos, assassinos e míopes, num cenário surpreendente e com música ao vivo
Entre os 26 textos escolhidos para o novo espectáculo d’A Escola da Noite, o público encontrará (muitos) míopes, pais que vêem gigantes onde filhos vêem moinhos, assassinos que saltam da tela de cinema, crianças que partem a lua em pedaços, esqueletos que falam, capitães que desertam, leões que choram e muitas outras coisas que nem sempre “saem à medida dos nossos desejos”.
A par do trabalho dos três actores da companhia, que se desdobram em dezenas de personagens, sobressai nesta produção o elaborado e surpreendente dispositivo cénico e a música original e sonoplastia de Jorri, que a interpreta ao vivo em todas as sessões da temporada. O trabalho de vídeo de Eduardo Pinto, a iluminação de António Rebocho e os figurinos e adereços de Ana Rosa Assunção completam o conjunto de contributos criativos para o espectáculo.
Depois das duas ante-estreias esgotadas em Julho, “TOMEO Histórias Perversas” estará agora em cena no Teatro da Cerca de São Bernardo entre 14 e 30 de Setembro – de quarta a sábado às 21h30 e aos domingos às 16h00. Os preços variam entre os 5 e os 10 Euros e a companhia aconselha vivamente a reserva antecipada de lugares. Devido às características do espaço cénico, e para salvaguardar a boa visibilidade de todos os lugares da bancada, a lotação é mais reduzida do que o habitual.

IMG_4879

Igor Lebreaud e Miguel Magalhães, “TOMEO Histórias Perversas” (foto: Eduardo Pinto)

Javier Tomeo e A Escola da Noite
Javier Tomeo (1932-2013) foi um dos autores mais originais e prolíficos da narrativa espanhola contemporânea. As suas obras foram traduzidas em quinze idiomas e várias foram adaptadas ao cinema ou representadas nos principais teatros europeus. A sua produção literária – com destaque para obras como “Amado Monstro” e “O Caçador de Leões” – foi distinguida com vários prémios, entre os quais o “Prémio Aragón a las Letras”, em 1994. Em 2012, toda a sua narrativa breve, incluindo as obras “Historias Mínimas” e “Cuentos Perversos”, foi reunida num só volume, pela editora Páginas de Espuma, sob o título “Cuentos Completos”. Morreu em Barcelona, em 2013, deixando dois livros por publicar: a novela “El hombre bicolor” e o seu último livro de micro-relatos “El fin de los dinosaurios”.
No prólogo de “Cuentos Completos”, Daniel Gascón identifica as oito “regras” que caracterizam a literatura de Tomeo: “aceitar as regras do acaso e do absurdo; a força da sugestão e o fascínio pelo monstruoso; a animalização dos humanos e a humanização dos vegetais e dos animais; o fascínio pelos pormenores do mundo natural e a desconfiança em relação à tecnologia; a fantasia desbocada e a intuição arrepiante; a vivência traumática do amor e do sexo; a violência repentina; a importância do ‘ele’ e esse olhar a que Tomeo gosta de chamar psicopático”. De tão singular, a obra de Tomeo é muitas vezes referida como “inclassificável”. Ainda assim, vários críticos e ensaístas têm encontrado nela influências de Kafka, de Buñuel, do surrealismo, mas também de Charlot, Buster Keaton ou de Ramón Gómez de la Serna.
Em Portugal, estão publicados “Amado Monstro” (Cotovia, 1990) e “Histórias Mínimas” (Livros Horizonte, 1992).
“Amado Monstro”, com encenação e interpretação de António Jorge e José Neves, foi o primeiro espectáculo d’A Escola da Noite, estreado em Coimbra a 19 de Março de 1992, no Teatro Académico de Gil Vicente.

TEATRO
TOMEO Histórias Perversas
A Escola da Noite

TOMEOHistoriasPerversas_EduardoPinto03

Sofia Lobo, “TOMEO Histórias Perversas” (foto: Eduardo Pinto)

textos Javier Tomeo tradução António Augusto Barros, Igor Lebreaud, Miguel Magalhães e Sofia Lobo dramaturgia, encenação e espaço cénico António Augusto Barros figurinos, adereços e imagem gráfica Ana Rosa Assunção música Jorri vídeo Eduardo Pinto iluminação António Rebocho interpretação Igor Lebreaud, Miguel Magalhães e Sofia Lobo voz-off Ana Gonçalves, Igor Lebreaud, Maria João Robalo figuração e maquinaria de cena Ana Gonçalves, Cláudia Morais e Sofia Coelho cabelos Carlos Gago | Ilídio Design consultadoria de cenografia João Mendes Ribeiro e Luísa Bebiano montagem e operação técnica Rui Valente e Zé Diogo

ESTREIA E TEMPORADA EM COIMBRA
Teatro da Cerca de São Bernardo
14 a 30 de Setembro de 2017
quarta a sábado, 21h30; domingos, 16h00
M/12 > 1h30
Preços: Normal, 10 €; Estudante, jovem, M/65, profissionais e amadores/as de teatro: 6 €; Entidades protocoladas TCSB: 5 €; Assinaturas TCSB: 50 € (10+1 entradas) ou 30 € (5 entradas)

informações e reservas:
239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt