Archive for the ‘criação’ Category

A Escola da Noite prepara dois espectáculos de Matéi Visniec

Quarta-feira, Junho 24th, 2020
Matéi Visniec (foto: Cato Leim)

Após dois meses e meio de paragem forçada, A Escola da Noite retomou os ensaios no início de Junho e prepara a estreia de duas novas criações, marcadas para os próximos meses de Setembro e Outubro. As inevitáveis alterações ao plano de actividades que estava previsto levaram a companhia de Coimbra de novo ao encontro do dramaturgo romeno Matéi Visniec. “Palhaço Velho, Precisa-se!” e “Do sexo da mulher como campo de batalha na Guerra da Bósnia” são as propostas do grupo para depois do Verão, no Teatro da Cerca de São Bernardo.

Autor de “Da sensação de elasticidade quando se marcha sobre cadáveres”, que A Escola da Noite apresentou em estreia mundial em Coimbra em 2014, Matéi Visniec continua a ser um dramaturgo particularmente caro à companhia, que encontra na sua vasta obra múltiplos desafios e motivos de interesse.
Nascido na Roménia em 1956, Visniec destacou-se na paisagem literária do seu país nos anos 80 do século XX. Os seus trabalhos foram proibidos pelo Governo de Nicolae Ceausescu e em 1987 exilou-se em França, onde continua a residir e trabalha como jornalista para a Radio France Internationale. Tem mais de 30 peças editadas e já foi representado em países como Itália, Grã-Bretanha, Polónia, Turquia, Suécia, Alemanha, Israel, Estados Unidos Canadá, Japão e Brasil. É o autor dramático vivo mais representado na Roménia e foi distinguido com o Prémio Europeu 2009 da SACD e com o Prémio “Coup de Coeur” (imprensa) no Festival Off de Avignon, em 2008 e em 2009, entre outros. Em Portugal, para além d’A Escola da Noite, viu espectáculos seus encenados pela Companhia de Teatro de Almada (2017), pela Seiva Trupe (2016), por A Bruxa Teatro (2003 e 2005) e pelo Teatro Extremo (2003).

A cultura como “espaço de liberdade e reflexão”
Matéi Visniec admite que encontrou na literatura um espaço de liberdade e de resistência contra os totalitarismos e reconhece a admiração por autores como Kafka, Dostoievski, Camus, Beckett, Ionesco e Lautréamont, bem como as influências de correntes artísticas como o surrealismo, o dadaísmo, o teatro do absurdo e do grotesco. No texto que, em 2014, escreveu para o programa do espectáculo d’A Escola da Noite, afirmava fazer “parte de uma geração que encontrou na resistência cultural a resposta para a lavagem ao cérebro, o seu orgulho e a sua dignidade”. “A cultura — acrescentava o escritor romeno — foi sempre um espaço de liberdade e de reflexão, de resistência contra a arregimentação do homem e contra a manipulação (pelas ‘grandes ideias’ mas também pela sociedade de consumo, pela publicidade, e pela indústria de entretenimento ou pela imagem, tão poderosa nos nossos dias)”.
Acreditando que a literatura é “o espelho do homem e dos seus sofrimentos, das suas dúvidas e dos seus combates”, Matéi Visniec oferece-nos nas duas peças agora trabalhadas pel’A Escola da Noite, escritas em diferentes momentos do seu percurso, a oportunidade de reflectirmos sobre alguns aspectos que marcam, por vezes de forma trágica, as sociedades europeias contemporâneas.

“Uma peça para o nosso tempo”
Em “Palhaço Velho, Precisa-se!” (“Petit Boulot pour vieux clown”, escrita em 1986), três palhaços velhos, com dificuldades económicas e sem trabalho, encontram-se numa sala de espera para uma entrevista de emprego. Alguém procura um “palhaço velho” para um “pequeno trabalho” e as três personagens precisam desesperadamente de provar que estão à altura da “oportunidade”. A alegria do reencontro, o confronto com as memórias de cada um e a competição em que se vêem envolvidos conjugam-se, no espaço apertado e claustrofóbico de uma sala de espera ante uma porta fechada, numa espécie de comédia trágica, com humor, tensão e perfídia. Em todos os países onde foi levada à cena têm sido identificadas as influências de “À espera de Godot”, de Samuel Beckett, também por se tratar de uma situação onde, aparentemente, “não acontece nada” para além dos (fortíssimos) diálogos entre personagens. Numa outra perspectiva, o crítico teatral dos Estados Unidos Peter Filichia escrevia em 2004: “é, definitivamente, uma peça para o nosso tempo. (…) Ela lida não só com a profunda ansiedade de um indívíduo que está desempregado mas também com o medo genuíno de que esteja demasiado velho para o mercado de trabalho.”
Com encenação de António Augusto Barros, interpretação de Igor Lebreaud, Miguel Magalhães e Ricardo Kalash, cenografia de João Mendes Ribeiro e Luísa Bebiano, figurinos de Ana Rosa Assunção e desenho de luz de Danilo Pinto, “Palhaço Velho, Precisa-se” estreará em Coimbra, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em meados de Setembro.

A mulher como campo de batalha
“Do sexo da mulher como campo de batalha na guerra da Bósnia” (“La femme comme champ de bataille ou Du sexe de la femme comme champ de bataille dans la guerre en Bosnie”, escrita em 1996) evidencia no seu próprio título o assunto que nos é proposto. Dorra foi violada durante a Guerra da Bósnia (1992-1995) e está internada na Alemanha, onde conhece Kate, psicóloga norte-americana que integrou uma equipa de especialistas em abrir valas comuns no chão da antiga Jugoslávia. A peça é um pujante retrato da guerra e da forma particular como, nesta e em outras guerras, as mulheres são vítimas directas e indirectas da barbárie. A memória da Guerra da Bósnia convoca-nos inevitavelmente para uma reflexão sobre os nacionalismos, a xenofobia e “os clichés, os lugares-comuns e as maldades” que demasiadas vezes marcam a relação dos indivíduos com “o outro”.
Com tradução, encenação e interpretação de Ana Teresa Santos e Sofia Lobo, figurinos e adereços de Ana Rosa Assunção, desenho de luz de Danilo Pinto e sonoplastia de Zé Diogo, “Do sexo da mulher como campo de batalha na guerra da Bósnia” estreia em Outubro, também no Teatro da Cerca de São Bernardo, depois da temporada de “Palhaço Velho, Precisa-se!”.

Hoje no TCSB: “Desmesura” ao final da tarde, com bilhetes mais baratos

Quinta-feira, Outubro 24th, 2019
“Desmesura”, de Hélia Correia (foto: Eduardo Pinto)

Começa hoje a última série de espectáculos da temporada de “Desmesura”. Às quintas, a sessão é às 19h00 e o bilhete é mais barato, com o preço único de 5 Euros.

A nova criação d’A Escola da Noite está em cena no TCSB só até ao próximo domingo. Faça-nos companhia!

TEATRO
Desmesura
de Hélia Correia
pel’A Escola da Noite

encenação Igor Lebreaud, Jarbas Bittencourt e Sofia Lobo interpretação Ana Teresa Santos, Daniela Marques, Igor Lebreaud, Lucília Raimundo, Miguel Magalhães, Sofia Lobo espaço cénico Carlos Júlio e Sofia Lobo direcção musical Jarbas Bittencourt figurinos Ana Rosa Assunção música original e espaço sonoro Jarbas Bittencourt e Zé Diogo desenho de luz Danilo Pinto adereços Ana Rosa Assunção e Carlos Júlio

10 a 27 de Outubro de 2019
quintas, 19h00
sextas e sábados, 21h30
domingos, 16h00
M/12 > 60′ > 5 a 10 Euros

informações e reservas:
239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt

Hoje no TCSB: a estreia de “Desmesura”

Quinta-feira, Outubro 10th, 2019
“Desmesura”, de Hélia Correia (foto: Eduardo Pinto)

Estreia esta noite, no Teatro da Cerca de São Bernardo, a nova criação d’A Escola da Noite: “Desmesura”, de Hélia Correia.

O espectáculo fica em cena até 27 de Outubro, de quinta a domingo. Faça-nos companhia!

TEATRO
Desmesura
de Hélia Correia
pel’A Escola da Noite

encenação Igor Lebreaud, Jarbas Bittencourt e Sofia Lobo interpretação Ana Teresa Santos, Daniela Marques, Igor Lebreaud, Lucília Raimundo, Miguel Magalhães, Sofia Lobo espaço cénico Carlos Júlio e Sofia Lobo direcção musical Jarbas Bittencourt figurinos Ana Rosa Assunção música original e espaço sonoro Jarbas Bittencourt e Zé Diogo desenho de luz Danilo Pinto adereços Ana Rosa Assunção e Carlos Júlio

10 a 27 de Outubro de 2019
quintas, 19h00
sextas e sábados, 21h30
domingos, 16h00
M/12 > 60’ > 5 a 10 Euros

informações e reservas:
239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt

A Escola da Noite estreia “Desmesura – exercício com Medeia”

Sábado, Outubro 5th, 2019
Diário As Beiras, 05/10/2019

Desmesura

Desmesura – recortes de imprensa

A Escola da Noite estreia “Desmesura” a 10 de Outubro

Quinta-feira, Outubro 3rd, 2019

A Escola da Noite estreia no próximo dia 10 de Outubro, quinta-feira, “Desmesura – exercício com Medeia”. A peça de Hélia Correia é uma revisitação ao mito imortalizado por Eurípides, a quem a escritora a dedica, como uma homenagem. Numa temporada ligeiramente mais curta do que o habitual, o espectáculo fica em cena no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, até 27 de Outubro, de quinta a domingo.

“Desmesura – exercício com Medeia” – foto de ensaio (© Eduardo Pinto)

A Escola da Noite partilha com Hélia Correia a profunda admiração pela cultura helénica e pelos textos clássicos. Mais de 20 anos depois de “As Troianas” (1997, com encenação de Konrad Zchiedrich) e de “Os Persas” (1999, encenação de Pierre Voltz) e dezasseis anos depois de “O Horácio”, de Heiner Müller (2003, também pela mão de Pierre Voltz), a companhia de Coimbra volta a mergulhar no universo dos grandes textos que marcam a história da cultura europeia. Medeia, a mulher do herói Jasão, sofre em Corinto a traição do marido e o peso de ser uma estrangeira, com língua e cultura diferentes. Abandonada e prestes a ser expulsa, planeia e executa a vingança, cuja atrocidade nos interpela até hoje, quase 2500 anos depois de ter sido escrita.

Os recônditos obscuros da alma humana
Hélia visita a versão de Eurípides e conta-nos a tragédia a partir do espaço doméstico – a cozinha da casa de Medeia e Jasão, espaço das escravas mulheres a quem dá destaque na obra. Longe de se propor fazer qualquer tipo de actualização do mito, a autora, que gosta de “pensar helenicamente” quando se debruça sobre os textos gregos, realça assim, aos olhos dos leitores e espectadores dos nossos dias, alguns dos traços essenciais do mito original: a dominação entre humanos (senhores-escravos, cidadão-bárbaro, nacional-estrangeiro, homem-mulher) e a forma como as relações de poder são construídas, alimentadas e alteradas pelo poder das palavras, mas também o lugar da paixão, dos sentimentos, da irracionalidade no comportamento humano e nas relações sociais.
“Desmesura” retrata, nas palavras da investigadora e professora da Universidade de Coimbra Fátima Sousa e Silva, aquilo que é “insondável e fluido: os recônditos obscuros da alma humana”.

“Desmesura – Exercício com Medeia” – foto de ensaio (© Eduardo Pinto)

“É preciso falar. É preciso retomarmos a palavra.”
A sabedoria dos gregos – afirmou Hélia Correia numa entrevista em 2012 – “é o conseguir aliar a inteligência, o pensamento e a fala sobre o pensamento – o ser livre enquanto ser falante; havia até uma fórmula: os humanos dotados de fala, ou dotados das asas da fala – com uma cosmogonia prodigiosa”. Neste “exercício com Medeia” o lugar e o poder das palavras é largamente evidenciado. A quem é reconhecido o direito de falar? Quem determina a língua em que nos podemos expressar? Que poder libertador podem ter as palavras quando as tomamos e recusamos a condenação ao silêncio que outros nos querem impor? O que fazer quando não encontramos a palavra adequada para descrever o que sentimos?
Sem surpresa, nem Hélia nem a sua Medeia nos dão respostas. Antes nos desafiam, uma pela voz da outra, a continuar a contar a história, “até que um de entre vós a compreenda!”. Porque “só a palavra dita, solta, dialogante, a capacidade de argumentação – esclareceu a autora numa outra entrevista recente – pode fazer pensar. É preciso falar. É preciso retomarmos a palavra”.

Um projecto com várias vozes
Inscrita no plano quadrienal de actividades proposto pel’A Escola da Noite para 2018-2021, “Desmesura” é a 68.ª criação da companhia. À equipa habitual junta-se para este projecto um conjunto alargado de artistas, vários deles trabalhando pela primeira vez com o grupo: as actrizes Ana Teresa Santos, Daniela Marques e Lucília Raimundo interpretam as três escravas da casa de Medeia e Jasão (interpretados por Sofia Lobo e Miguel Magalhães); o artista plástico Carlos Júlio estreia-se na cenografia e assina o espaço cénico (com Sofia Lobo); o músico e compositor brasileiro Jarbas Bittencourt (que o público de Coimbra recorda de “As Orações de Mansata”) assume a direcção musical, compõe a música original e cria, com Zé Diogo, o espaço sonoro que envolve o espectáculo. A encenação é partilhada entre Igor Lebreaud, Jarbas Bittencourt e Sofia Lobo.
“Desmesura” fica em cena em Coimbra até 27 de Outubro, de quinta-feira a domingo – às sextas e sábados às 21h30, aos domingos às 16h00 e às quintas-feiras às 19h00, mantendo a aposta de sucesso iniciada em Junho com “o homem que”.
Os bilhetes, que já podem ser reservados pelos contactos habituais (239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt), custam entre 5 e 10 Euros.

TEATRO (ESTREIA)
Desmesura
de Hélia Correia
pel’A Escola da Noite

encenação Igor Lebreaud, Jarbas Bittencourt e Sofia Lobo interpretação Ana Teresa Santos, Daniela Marques, Igor Lebreaud, Lucília Raimundo, Miguel Magalhães, Sofia Lobo espaço cénico Carlos Júlio e Sofia Lobo direcção musical Jarbas Bittencourt figurinos Ana Rosa Assunção música original e espaço sonoro Jarbas Bittencourt e Zé Diogo desenho de luz Danilo Pinto adereços Ana Rosa Assunção e Carlos Júlio

10 a 27 de Outubro de 2019
estreia: 21h30
quintas-feiras, 19h00
sextas e sábados, 21h30
domingos, 16h00
M/12 > 60′ > 5 a 10 €

informações e reservas:
239 718 238 / 966 302 488 / geral@aescoladanoite.pt