GATTACA “there is no gene for the human spirit”

8 de Fevereiro, 2010

A segunda sessão do ciclo de cinema INCORPORAÇÕES continua hoje [8 de Fevereiro, segunda-feira, pelas 21h30], com a projecção do filme “Gattaca” de Andrew Niccol. Neste ciclo, organizado pelo Núcleo de Estudos sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, os filmes foram escolhidos e são comentados por investigadores desse Núcleo: o comentário a este filme será feito por Rita Serra — investigadora do Observatório do Risco OSIRIS e do Núcleo de Estudos sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade.

“Gattaca” SINOPSE  Sendo um dos últimos seres “naturalmente” nascidos num mundo geneticamente perfeito, Vincent Freeman não tem um ADN “pré-encomendado” que lhe permita ter sucesso na vida. Desesperado por realizar o seu sonho de explorar o espaço, Vincent assume a identidade de um atleta geneticamente superior. Usando as marcas genéticas do atleta a fim de não ser detido, Vincent torna-se uma estrela em ascensão dentro da Gattaca Aerospace, atraindo a atenção de uma deslumbrante colega. Mas quando um comandante é brutalmente assassinado, uma pista deixada no local do crime ameaça acabar com os planos de Vincent. REALIZADOR Andrew Niccol INTÉRPRETES Ethan Hawke, Uma Thurman, Alan Arkin, Jude Law, Loren Dean, Gore Vidal, Ernest Borgnine. (EUA, 1997 – 102m).

Ciclo inclui espectáculos, debates e workshop

4 de Fevereiro, 2010

O monólogo é coisa pública na Semana Cultural da Universidade

António Pinho Vargas, Custódia Gallego, Cándido Pazó, Ana Bustorff e Denise Stoklos são os artistas convidados pela Reitoria da Universidade de Coimbra e pel’A Escola da Noite no âmbito do ciclo “do monólogo, coisa pública”, integrado no programa da XII edição da Semana Cultural da Universidade, que vai decorrer entre 1 e 6 de Março.

O programa completo da iniciativa foi apresentado esta manhã em Coimbra, numa conferência de imprensa em que intervieram o Reitor da Universidade, Seabra Santos, o Pró-Reitor para a Cultura, José António Bandeirinha, e o director artístico d’A Escola da Noite, António Augusto Barros.

Convidada para conceber e produzir a parte externa à Universidade da programação da Semana Cultural (que, na sua globalidade, inclui mais de 70 iniciativas promovidas pela própria comunidade académica), A Escola da Noite propôs o ciclo “do monólogo, coisa pública”.

António Augusto Barros salienta a tríade em que propositadamente assenta esta proposta: criação, formação e reflexão. Partindo do tema definido para a Semana Cultural – “Causa pública: o público e o mediático”, A Escola da Noite construiu um programa assente no monólogo, enquanto género teatral que conquistou a sua autonomia na escrita dramática contemporânea. “Um homem ou uma mulher em cena podem ser um mundo em si próprios, acompanhando a pluralização do eu que o século passado promoveu como nenhum outro, falam com as suas vozes, os seus outros eus; e falam com o mundo, são ícones do mundo, resistindo à incomunicação que medra nas cidades”, escreve António Augusto Barros. Daí a idéia do monólogo como “coisa pública”, como forma particular da abordagem das artes cénicas ao contexto em que vivemos. “Estamos todos a falar sozinhos, nas ruas, nos asilos, nas prisões, nos hospitais. Como poderia o teatro, talvez a mais política das artes, a mais atenta e dependente da polis, resistir a falar de tudo isto?”, pergunta António Augusto Barros.

O ciclo inclui seis espectáculos, que preencherão as noites, de segunda a sábado, da Semana Cultural: “Solo I e II”, concerto de António Pinho Vargas que assinala o regresso do compositor a Coimbra, onde há vários anos não se apresentava; “Vulcão”, a peça que Abel Neves escreveu para a actriz Custódia Gallego, numa co-produção entre o Teatro Nacional D. Maria II e o Teatro do Bolhão; “Historias Tricolores: ou de como aqueles animaliños proclamaron a República”, uma viagem pela história recente de Espanha através das memórias dos personagens incarnados por Cándido Pazó; “Concerto à la Carte”, um exigentíssimo trabalho da actriz Ana Bustorff perante o texto (uma longa didascália) do dramaturgo alemão Franz Xaver Kroetz; e por fim, Denise Stoklos. O público de Coimbra terá finalmente oportunidade de assistir ao vivo ao trabalho de uma das mais consagradas actrizes brasileiras, com uma impressionante e premiada carreira internacional. No âmbito da Semana Cultural, apresentará em Coimbra dois espectáculos: “Mary Stuart”, que mantém em reportório há vários anos e é considerado como um dos seus trabalhos mais emblemáticos, e “Calendário da Pedra”, mais recente, que tem sido apresentado nas principais salas brasileiras e internacionais.

Para além dos espectáculos, o ciclo inclui ainda o workshop “A oralidade no actor”, dirigido por Cándido Pazó (co-organizado com o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra) e um conjunto de dois debates, que reunirão especialistas em artes cénicas e os artistas presentes na semana, numa iniciativa conjunta da Reitoria e do Curso de Estudos Artísticos da Faculdade de Letras, proposta pel’A Escola da Noite.

Os espectáculos repartem-se pelo Teatro Académico de Gil Vicente e pelo Teatro da Cerca de São Bernardo e têm lugar, entre 1 e 6 de Março, sempre às 21h30. Os bilhetes podem ser reservados ou adquiridos com antecedência nas próprias salas, já a partir da próxima semana.

“do monólogo, coisa pública” — apresentação

4 de Fevereiro, 2010

“O monólogo foi olhado durante séculos com uma indisfarçada desconfiança.

O realismo e o naturalismo toleravam-no, dentro da forma teatral, como excepção: era estático, anti-teatral, inverosímil.

Nos clássicos gregos e em Shakespeare, no entanto, a presença do solilóquio é exemplar. Como pensar peças como Medeia, Rei Édipo, Hamlet, Lear, sem a reflexão solipsista dos seus protagonistas?

A escrita contemporânea, em especial a escrita da segunda metade do século XX, caracteriza-se pela “destruição da dramaturgia dialógica”. Não se trata de uma substituição nem de uma menorização da palavra, mas de um outro entendimento da escrita, menos auto-suficiente e mais consciente da sua parte na organização cénica. O discurso cénico reorganiza-se de forma rapsódica, valoriza-se a colagem, o fragmento, a pulsão poética. Beckett, Heiner Müller, Handke, Kroetz, Gregory Motton e um sem número de dramaturgos escreveram, escrevem para um acto criativo que quer estabelecer um novo protocolo com o espectador entregando-lhe uma parte maior do que a mera decifração de um enredo, entregando-lhe dúvidas, perplexidades, partes ocas, buracos negros para que complete a sua leitura de uma forma crítica, criativa.

O monólogo, o solo, para além de meras razões económicas (que também as há), autonomizou-se mesmo da obra, deixou de ser parte para passar a ser um género próprio, uma forma autónoma cada vez mais cultivada.

Um homem ou uma mulher em cena podem ser um mundo em si próprios, acompanhando a pluralização do eu que o século passado promoveu como nenhum outro, falam com as suas outras vozes, os seus outros eus; e falam com o mundo, são ícones do mundo, resistindo à incomunicação que medra nas cidades, à insatisfação, à mutilação do desejo, ao abandono dos velhos, dos marginais, das crianças, dos desempregados, dos esfomeados. Estamos todos a falar sozinhos, nas ruas, nos asilos, nas prisões, nos hospitais. Como poderia o teatro, talvez a mais política das artes, a mais atenta e dependente da polis, resistir a falar de tudo isto?”

António Augusto Barros

“Gattaca”

3 de Fevereiro, 2010

É já na segunda-feira, pelas 21h30 que decorre a segunda sessão do ciclo de cinema INCORPORAÇÕES com a projecção do filme “Gattaca” de Andrew Niccol. Neste ciclo, organizado pelo Núcleo de Estudos sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, os filmes foram escolhidos e são comentados por investigadores desse Núcleo: o comentário a este filme será  feito por  Rita Serra.


O primeiro livro

2 de Fevereiro, 2010

Em 1963, José Rubem Fonseca, na altura com 38 anos,  lança o primeiro livro. “Os Prisioneiros” é o título da obra que reúne 11 contos e que marca o início da longa carreira deste autor brasileiro e dele disse, de imediato, Wilson Martins que era “um escritor que traz[ia] a literatura no sangue”.

Outro crítico, João Alexandre Barbosa, observa no estilo deste novo autor, duas maneiras distintas de narrar dizendo que “se num conto como ‘Fevereiro ou Março’, nos encontramos subitamente imersos em um universo criado por uma torrente de sensações, emoções e cálculos pegajosamente entranhados na consciência da personagem, no outro, como ‘Duzentos e vinte e cinco gramas”‘, por exemplo, a arte do contista parece violentar os limites da narração, criando pequenos quadros de descrição objetiva, jogando, por assim, dizer a palavra contra o reino da precisão e da síntese.”

A descrição da cidade, uma das marcas da obra de Rubem Fonseca, é amplamente elogiada desde logo nas histórias de ”Os Prisioneiros”. “Poucos ficcionistas são capazes de descrever a vida das grandes cidades como verdadeiramente uma selva trágica, em que o quotidiano aparece como um conjunto de ciladas fatais e irreversíveis.” (in O carácter social da literatura brasileira, de Fábio Lucas)

Veja aqui uma cópia de uma crítica de 1963 ao livro do autor cujos contos são a matéria da segunda co-produção d’A Escola da Noite com a Companhia de Teatro de Braga.